Quando a Comunicação Não Comunica

Por Janquiel Zeni Papini – para o Tecnopolítica

Por mais que a comunicação sempre tenha feito parte do meu trabalho, foi só nos últimos anos — debruçado mesmo, quase em modo obsessivo — que compreendi o óbvio: as redes sociais não são espaços neutros de diálogo público. São plataformas de publicidade. São vitrines de atenção, vendas e disputa por narrativa. E a política, queiramos ou não, está dentro desse jogo há muito tempo.

Falo isso não como militante, nem como alguém “de dentro”, mas como estudioso da comunicação, das eleições, da disputa pelo poder e do funcionamento da política institucional. Como alguém que observa com atenção — e que se permite analisar o que está diante dos nossos olhos.

É nesse contexto que se completam os três primeiros meses de Sidônio Palmeira à frente da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. E com todo o respeito à sua história — que é grande —, é inevitável apontar: o governo federal ainda não entendeu como se comunica na era algorítmica.

Os dados do levantamento da Bites não mentem: houve uma queda de 10% no engajamento do perfil do presidente Lula nas redes, ao mesmo tempo em que houve um aumento de 152% nas postagens dos ministérios. Mais postagens, menos resultado. Mais volume, menos escuta. O governo está dizendo muito, mas pouca gente está ouvindo — e menos ainda se engajando.


Sidônio chamou a briga pra ele. Mas não dá pra ir de terno e gravata pra um UFC.

Sidônio é um estrategista de campanha — dos bons. Mas a lógica da campanha não se aplica automaticamente à lógica de governo. Na campanha você comanda um exército de conteúdo com foco. No governo, você tenta coordenar um coral de vozes diferentes com pouca harmonia. E tudo isso em plataformas que recompensam o exagero, a simplicidade emocional e o escândalo.

O campo progressista ainda comunica como quem redige nota oficial. Mas no tempo da lógica de cliques, quem explica, perde. Enquanto a extrema-direita dispara com narrativas curtas, falsas e emocionalmente apelativas, a esquerda institucional ainda hesita em usar as ferramentas mais básicas de copy, CTA e viralização.


Eu, como educador, custei a aceitar. Mas precisei entender: não é só sobre dizer a verdade.

É sobre como dizemos. É sobre os gatilhos mentais, os textos com começo, meio e clímax em 3 segundos, as CTAs bem colocadas, a emoção que convence antes da razão. Como pedagogo, resisti. Mas como comunicador político, precisei aceitar a realidade do campo onde essa disputa acontece.

Não se trata de mentir ou manipular. Trata-se de aprender a comunicar no idioma da plataforma, com a estética da atenção, com a urgência do agora. E, acima de tudo, com inteligência emocional.


O governo ainda não disputa o meio. Está preso entre extremos.

Como a gente diz aqui no Rio Grande do Sul, fazendo uma conta de padeiro: se temos 30% do povo que apoia convictamente o governo e outros 30% que estão na oposição com o mesmo grau de convicção, sobra um meio de 40% que está em disputa real. Esse é o campo da batalha comunicacional — e é nele que se decide o rumo do país.

E esse público do meio não se conquista com dossiês, planilhas ou campanhas institucionais. Ele se conquista com vídeos de 30 segundos que toquem na dor, na esperança ou no senso de justiça. E se a SECOM quiser mesmo virar o jogo, vai ter que falar como o povo fala, postar como o povo consome, reagir como o povo sente.


A saída de Pimenta não resolveu o problema. Só mudou o alvo.

Cheguei a sofrer críticas por dizer que a saída do Paulo Pimenta da SECOM aconteceu com o argumento errado. Mas sigo convicto: Pimenta não era o problema. Ele era, na prática, a consequência de uma lógica mais profunda — de um jeito de pensar a política que ainda não entendeu o lugar central da comunicação.

Se o governo como um todo não entender que comunicação não é acessório, é centro estratégico, continuará exposto, errando o tom, o tempo e o canal. Continuará apagando incêndio onde deveria acender farol.

Se alguém ainda acha que dá pra governar sem colocar a comunicação no coração do projeto político, está ignorando o que está diante do nariz. E isso, com todo respeito, é uma forma de negacionismo.

Hoje, infelizmente, o governo vive um negacionismo comunicacional. Não aquele que nega a ciência ou a vacina — mas o que nega a natureza algorítmica e emocional da disputa política nas redes.

E isso, talvez, seja ainda mais perigoso. Porque é silencioso, institucional, e faz com que a gente continue se perguntando: por que ninguém está ouvindo?

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